sexta-feira, 19 de agosto de 2016

NEM TÃO CLÁSSICAS ASSIM - Novelas de sucesso antigo que fracassaram em versões mais atuais

Muito se fala a respeito das chamadas "novelas clássicas" - enredos de origens das mais antigas que, teoricamente, fazem sucesso em qualquer época e se ajustam a qualquer roupagem. Será mesmo? A história parece provar que não. De mais ou menos 15 anos para cá, temos inúmeros exemplos de remakes de grandes êxitos do passado que não vingaram em versões mais contemporâneas.

Na TV brasileira, a Globo amargou o sabor do insucesso ao decidir adaptar Guerra dos Sexos, O Rebu e Saramandaia para a atualidade. A primeira, original de 1983 e refilmada em 2012, foi criticadíssima por seguir fielmente o texto da versão anterior sem se preocupar em atualizar o pano de fundo central – a batalha por poder entre homens e mulheres. As outras duas, por sua vez, até se ajustaram bem aos dias atuais, mas nem por isso conquistaram a audiência.

E no universo latino, será que a coisa também vai por aí? Confira alguns exemplos:


SIMPLEMENTE MARÍA (2015)

Um dos casos mais recentes – e retumbantes – de um ícone da dramaturgia latina do passado que fracassou nos dias atuais. A obra original de Celia Alcántara começou como radionovela nos anos 50 e foi filmada pela primeira vez em 1967, na Argentina.

O êxito da primeira versão televisiva chamou a atenção de produtores do Peru, que realizaram a partir daí, em 1969, um dos maiores sucessos da história da TV local. O burburinho da produção peruana acabou chegando ao Brasil, que filmou em 1970 sua própria versão da história, com a atriz Yoná Magalhães no papel principal.

Outra versão muito famosa da história foi a produzida pela Televisa em 1989, com roteiro de Carlos Romero (Maria do Bairro, A Usurpadora) e estrelada por Victoria Ruffo, convertendo-se em um dos maiores êxitos internacionais da produtora mexicana ao longo da década de 90. Foi recordando esse sucesso que o produtor Ignacio Sada Madero resolveu chamar Gabriela Ortigoza, uma das co-autoras da versão de 1989, para reescrever a história com roupagem moderna.

Mas não é que desta vez Simplemente María não vingou? A história rosa de María Flores não encantou o público como antes fizera tantas vezes e terminou como um dos maiores fracassos da Televisa na presente década, a tal ponto que a faixa de novelas das 16h30 foi cancelada após sua exibição.

Muitas explicações há para o fracasso da última versão da história: a má qualidade da produção – algo típico dos trabalhos de Sada Madero –; as caracterizações forçadas dos atores na segunda fase da trama, quando os personagens "envelhecem"; o desempenho de Claudia Alvarez como protagonista, que dividiu opiniões; ou até mesmo um possível desgaste da história, que, outrora tão efetiva, já não teria o mesmo apelo e a mesma força de antigamente. Seja como for, o fato é que a atualização de Simplemente María fracassou feio.


O IMPERDOÁVEL (Lo Imperdonable, 2014)

Que A Mentira é um dos maiores clássicos da TV mexicana, ninguém porá em dúvida. Embora as versões precursoras dos anos 60, 70 e 80 tenham feito muito sucesso, a adaptação assinada pelo produtor Carlos Sotomayor em 1998 é considerada a definitiva da história original de Caridad Bravo Adams – que mais tarde ganharia outras adaptações de relativo sucesso, como Cuando me Enamoro (2010), versão livre do produtor Carlos Moreno Laguillo, e Corações Feridos (2012), novela brasileira do SBT.

Talvez pensando na imortalidade desse argumento, onde o amor e o ódio se misturam em um implacável e injusto plano de vingança, o produtor Salvador Mejía, decidiu produzir mais uma versão de A Mentira. Assim nasceu Lo Imperdonable, que terminaria como uma das novelas mais insossas e enfadonhas já produzidas na história da Televisa.

O principal erro esteve no casamento da trama original de A Mentira com outro texto antigo de Bravo Adams, La Noche de los Muertos – aqui representado pelos personagens de Ana Pérola (Gaby Mellado) e Pablo (Sebastián Zurita), considerados co-protagonistas. O romance dos dois, de tão açucarado, acabou ficando sem sal e passou longe de cair no gosto popular. Isso, somado ao fato de que a história principal, embora forte, apresentava sérios desgastes – A Mentira havia sido reprisada muitas vezes, e a última versão, Cuando me Enamoro, fora produzida pela própria Televisa há apenas cinco anos! – e também a alguns problemas de produção – a adaptação começou pelas mãos de Ximena Suárez, depois passou para Jesús Calzada e terminou nas mãos de Ricardo Fiallega – fez com que o público torcesse completamente o nariz para a enésima versão da história.

Apesar de ter sido um indiscutível fracasso, O Imperdoável conseguiu se sobressair em alguns quesitos, como a atuação das jovens e talentosas Grettel Valdéz e Ana Brenda Contreras na pele da vilã Virgínia e a heroína Verônica, e a excelente química de Ana Brenda com seu par romântico, o galã espanhol Iván Sánchez – tamanha que os dois atores acabaram engatando uma relação também fora das telas.


QUIÉN ERES TÚ (2012)

Fazer uma nova versão de A Usurpadora só poderia ser uma boa pedida, certo? Errado! No projeto inaugural de sua parceria com a colombiana RTI, a Televisa liberou os direitos da história de Paola (Gabriela Spanic) e Paulina (Gabriela Spanic) para uma adaptação completamente livre, assinada pelas escritoras Jimena Romero e Lina Uribe.

Da história original, as autoras aproveitaram apenas a premissa de “duas irmãs gêmeas que trocam de lugar” e construíram um enredo completamente novo. Diferentemente de Paola e Paulina, a ingênua Natalia (Laura Carmine) e a malvada Verónica (Laura Carmine) sempre souberam da existência uma da outra, mas se separaram na adolescência após um trágico incidente.

As duas se reencontram quando Verónica, vivendo um casamento infeliz com o milionário Felipe Esquivel (Julián Gil), usa de mentiras para convencer Natalia a usurpar seu lugar pelo que seria um breve período – na verdade, Verónica quer assassinar a irmã para forjar a própria morte e depois, de posse da identidade dela, sumir no mundo com seu cunhado Lorenzo (Lincoln Palomeque). A “Paola Bracho remasterizada” só não imaginava que seu plano desse errado e Natalia ainda acabasse apaixonando pelo marido da outra, Felipe.

O fato é que a história inventada por Romero e Uribe não possuía nem a metade do apelo popular logrado pela sinopse original de Inés Rodena e a adaptação de Carlos Romero, e acabou fracassando rotundamente, tanto em sua exibição original – nos Estados Unidos – como no exterior.

Porém, como a Televisa não é brasileira, mas também não desiste nunca, o projeto de um novo remake de A Usurpadora foi liberado para o próximo ano e já está sendo desenvolvido pela equipe da produtora Angelli Nesma Medina – desta vez, com a proposta de seguir fielmente o texto original. Será que agora vai vingar?


CORAZÓN SALVAJE (2009)

Salvador Mejía Alejandre parece estar gostando de colecionar fracassos de dez anos para cá, e a versão mais recente do clássico Corazón Salvaje ficou marcada como um dos ápices dessa má safra da carreira do outrora conceituado produtor de novelas.

Disposto a recriar o sucesso da versão de 1993, imortalizada pelas atuações de Edith González, Eduardo Palomo e Ana Colchero, Mejía não teve medo de ousar e encomendou para sua escritora de cabeceira, Liliana Abud, uma fusão da história de Corazón Salvaje com Yo Compro Esa Mujer, de Olga Ruilópez. O que vimos na tela a partir de então foi uma novela confusa, sem graça, mal-escrita e além de tudo pessimamente produzida – os cenários eram de um mau gosto extremo, as caracterizações soavam burlescas de tão exageradas e os efeitos visuais, para cúmulo, eram um verdadeiro retrocesso quanto à qualidade. “Destaque” ainda para o desempenho protagônico de Aracely Arámbula, simplesmente péssima na pele da mocinha Mónica e da vilã Regina – sim, aqui as duas personagens eram gêmeas (!).

Ninguém duvida do apelo que a belíssima trama de Corazón Salvaje ainda possui junto ao público – sempre e quando, claro, produzida com o mínimo de competência. Agora, diante do fracasso de imensas proporções que foi a versão de 2009, parece difícil que algum produtor queira tentar resgatar essa história de novo tão cedo. Ou será que não?


TRIUNFO DO AMOR (Triunfo del Amor, 2010)

Com a carreira já em franca decadência, Mejía – ele de novo – resolveu apelar para a nova versão de uma obra memorável: O Privilégio de Amar, nada menos do que uma das novelas mais vistas da história da Televisa. Certo de que ia arrebentar, o produtor escalou Maite Perroni e William Levy para repetirem o bem-sucedido par romântico de Cuidado com o Anjo, de sua esposa Nathalie Lartilleux.

O que se viu foi um fiasco quase tão grande como o de Corazón Salvaje na carreira de Mejía. Triunfo do Amor gozou de baixa audiência do início ao fim e era diariamente esculhambada pela imprensa e a crítica especializada. Os problemas começavam no próprio nome da protagonista – “María Desamparada”, uma escolha ridícula e infeliz que até a autora original da história, Delia Fiallo, criticou amplamente –, e culminavam na adaptação lenta e descabida de Liliana Abud, estranhamente a mesma que adaptara com sucesso O Privilégio de Amar.

Uma das poucas que se salvou nesse remake foi Daniela Romo, cuja vilã Bernarda foi um destaque tão grande ou até maior do que fora a seu tempo Marga López em O Privilégio de Amar. No tocante ao resto, Triunfo do Amor foi uma experiência que a Televisa e o público preferem esquecer.


El DERECHO DE NACER (2001)

O prestigiado produtor Carlos Sotomayor errou a mão ao tentar ressuscitar, no início da década passada, um dos maiores clássicos da história da dramaturgia latina: O Direito de Nascer.

Mantendo intacta a premissa original, esta versão do clássico de Félix Caignet pecou pela falta de atualização do argumento, tornando-o incoerente e ultrapassado para os tempos modernos, e também por inserir temas que nada tinham a ver com o tom predominantemente melodramático da história. Havia, por exemplo, uma subtrama de grande destaque abordando o tráfico de drogas – pense que a dona-de-casa Clemencia (Diana Bracho), mãe da protagonista Maria Elena (Kate del Castillo), era viciada em morfina!

Por outro lado, esta versão de El Derecho de Nacer foi feliz em inserir uma história de amor mais consistente para a heroína, através da criação de um personagem que não existia na original: o galã Aldo Drigani (Saúl Lisazo).

Vale comentar também que, nesse mesmo ano de 2001, o SBT também levou ao ar uma adaptação de O Direito de Nascer, dirigida por Roberto Talma e protagonizada por Guilhermina Guinle e Jorge Pontual. Embora não tenha atingido bons índices de audiência, a história foi feliz ao preferir ambientar-se em Havana, capital de Cubana, um contexto em que o profundo conservadorismo do argumento fazia mais sentido.


INOCENTE DE TI (2004)

Em sua estreia como produtora executiva na Televisa, Nathalie Lartilleux resolveu apostar suas fichas neste remake de Maria Mercedes (1992), adaptado por Carlos Romero e realizado em parceria com a Fonovideo, de Miami.

Muitos são os fatores apontados para o insucesso de Inocente de Ti: a má qualidade técnica das produções da Fonovideo, inferior à da Televisa; o elenco multinacional, promovendo uma profusão de sotaques diferentes que conferiu uma identidade confusa à novela; e a atuação de Camila Sodi como protagonista – inexperiente como atriz, ela claramente buscava imitar a interpretação de Thalía, sua tia na vida real, em Maria Mercedes.

Agora, o principal problema mesmo estava no argumento, completamente inconsistente para um folhetim atual. Carlos Romero ainda tentou incrementá-lo, acrescentando uma parte inexistente em Maria Mercedes, com um galã frígido inédito (Luis José Santander) aparecendo para conquistar a mocinha. Mas foi em vão.

Embora tenha sido um grande fracasso no México, Inocente de Ti teve uma acolhida relativamente boa no mercado internacional, sendo sucesso em diversos países aos quais foi exportada. Além disso, a novela foi pioneira no estilo de novelas rosas e exageradas que foi se tornando a especialidade de Nathalie Lartilleux até os dias atuais.


LAS AMAZONAS (2016)

E lá vamos lá de novo falar sobre Salvador Mejía e os incontáveis e sucessivos fracassos de sua carreira recente – Las Amazonas foi o último deles. O mega sucesso da história original de César Miguel Rondón pelas mãos de Angelli Nesma em Niña Amada Mía (2003) animou o “estragador de clássicos” a produzir esta nova versão – que, vale lembrar, apenas três anos antes havia rendido um remake elogiado, porém de baixa audiência, com Las Bandidas (2013), co-produção entre a Televisa e a colombiana RTI.

Como a última versão no México estava bastante recente, Mejía decidiu apelar para profundas modificações no enredo original – a começar pela duração: Las Amazonas, original da Venezuela de 1985, teve 151 capítulos, e o remake recente contou com apenas 60. Outra modificação profunda foi o destaque dado à personagem de Victoria Ruffo (Inés) na adaptação: em 2016 ela tinha ares de protagonista, enquanto nas versões anteriores era uma personagem bastante secundária.

Seja por ser um remake prematuro, pelas mudanças infelizes ou pelo ritmo lento, o fato é que Las Amazonas não caiu no gosto do público e terminou há poucas semanas, sem pena, nem glória, sua trajetória na grade do Canal de las Estrellas.

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Um comentário:

Anônimo disse...

Triunfo Foi Uma Das Mais Vendidas Entre Elas ,Fracasso Só No Mexico