domingo, 23 de fevereiro de 2014

As trocas de atores nas telenovelas latinas – Parte 1

O mundo das telenovelas é incerto e ninguém sabe o rumo que uma história pode tomar com os imprevistos que podem surpreender uma produção em andamento. Muitas vezes por conflitos com a produção, problemas pessoais ou de saúde, alguns protagonistas ou atores de elenco são substituídos por outros. Em alguns casos, essas saídas podem ser justificadas com a morte do personagem, mas, em outras, são simplesmente substituídas, deixando o público um tanto confuso. Para bem ou para mal, os escritores enfrentam um desafio ao recompor as histórias; às vezes, são bastante engenhosos, outras, nem tanto.

Desde o início da produção de telenovelas, há pouco mais de sessenta anos, são pouquíssimas as produções que começam a ser exibidas totalmente gravadas. As telenovelas entram no ar com uma média de quarenta capítulos gravados, raras vezes com quinze, dez e até mesmo cinco capítulos prontos. Como se trabalha com pessoas, o que não faltam são imprevistos detrás das câmaras.

Jorge Mistral
Começando pelos anos 70, temos a produção Hermanos Coraje, telenovela realizada pela Panamericana Televisión, do Peru, e Televisión Independiente de México, baseada na obra da autora brasileira Janete Clair. Nesta ocasião, o suicídio do ator Jorge Mistral, o intérprete do vilão da história, que na vida real estava passando por um período depressivo, devido a um câncer detectado no duodeno, colocou em apuros os produtores que tiveram que buscar um substituto para o papel, outro ator durão, com aspectos físicos parecidos ao de Mistral, para que desse vida ao cruel Pedro Barros. O escolhido, então, foi Armando Calvo, que seguiu o caminho traçado por Mistral e simplesmente gravou a telenovela até o seu final.

Em 1972, a RCTV produz La doña, a primeira versão da história que renderia diversas outras adaptações, inclusive uma brasileira e a mais recente versão mexicana Soy tu dueña. Nesta ocasião, Lila Morillo, em seu primeiro papel protagônico, interpretava Doménica, uma doce mulher que após ser abandonada no dia de seu casamento passava por uma grande transformação de personalidade. Entretanto, faltando apenas sete dias para o final da telenovela, a protagonista foi despedida por não cumprir com os horários de chegada às gravações. Com sua saída, convidaram Agustina Martín para a personagem de Doménica, e o melodrama foi cortado abruptamente em uma semana.

Nessa mesma década, no México, quando a televisão em cores chegava a muitos países, inclusive no Brasil, o sucesso brindava as produções de Valentín Pimstein e a versão original de Os ricos também choram, de 1979. No entanto, o melodrama sofreria uma perda significativa em seu elenco com uma greve entre o sindicato de atores da época e um problema pessoal de uma atriz que fizeram com que três atores do elenco fossem retirados da produção. Miguel Palmer, Columba Domínguez e Alicia Rodríguez se ausentaram da telenovela, sendo substituídos por outros atores que não desafinaram em nada e a produção seguiu com o mesmo êxito em terras astecas e em outros países como no Brasil e no Peru, onde a transmitiam quase que simultaneamente com o México, devido ao acordo que a América Televisión havia firmado com os executivos da Televisa.

Também em 1979, na telenovela Estefanía, produção venezuelana da RCTV, protagonizada por Pierina España e José Luis Rodríguez “El Puma”, o então solicitado ator e cantor recebe uma oferta internacional que o obriga a deixar a produção; matam seu personagem e um papel secundário interpretado por Carlos Olivier sobe ao nível de protagonista e fica com a heroína ao final da história.

Nos anos oitenta, também ocorreram mudanças nas telenovelas, uma delas foi em 1983, em A fera, quando Lupita Lara teve que retirar-se durante a rodagem da trama e foi substituída por Nuria Bages, no papel de Helena. Outro substituído foi Alfredo Alegría, que deixou seu personagem, Lupito, para Alfonso Iturralde.

Edith González
Em Rosa selvagem, de 1985, realizada pela Televisa, Leonela, interpretada por Edith González sofreu uma mudança de atriz e foi substituída por Felicia Mercado. Conta-se que Edith tinha problemas com Verónica Castro, a protagonista da telenovela, além disso, que não estava contente com o rumo que sua personagem teria na história. Se bem que a mudança não tenha prejudicado em nada a produção, o talento de Edith se notou superior ao de Felicia, que recentemente havia começado no universo da atuação.

No ano de 1986, o remake de El amor tiene cara de mujer, intitulado Principessa e produzido por Valentín Pimstein, sofreu várias mudanças. Devido à quilométrica duração da telenovela, vários personagens foram interpretados por mais de um ator. Fernanda, inicialmente interpretada por Angélica Aragón, que saiu da produção para protagonizar Vivir un poco, foi vivida por Alma Muriel, que, posteriormente, também se retirou para protagonizar Los años felices. Finalmente a personagem ficou nas mãos de Hilda Aguirre. Outra mudança foi a substituição de Manuel Saval por Gerardo Paz e Roxana Saucedo por Cristina Rubiales.

Também em 1986, durante as gravações de Monte Calvario, uma produção de Valentín Pimstein protagonizada por Edith González e Arturo Peniche, Odiseo Bichir substituiu Alfonso Iturralde no papel de Roberto. O motivo foi porque o ator não chegou a um acordo de pagamento com a produção.

Doris Wells
Ainda em 1986, a venezuelana RCTV produz La dama de rosa, telenovela original de José Ignacio Cabrujas, que, originalmente, seria protagonizada por Jeannette Rodríguez, Gustavo Rodriguez e Doris Wells. Em etapa de pré-produção, Doris se nega a participar do projeto alegando que devido sua ampla trajetória merecia o primeiro crédito, acima de Jeannette, querendo que seu papel fosse protagônico e não co-protagônico. Em seguida, a atriz foi substituída por Nancy González, que gravou alguns capítulos. Não passou muito tempo quando ela e o ator Gustavo Rodríguez foram separados abruptamente da produção por problemas de drogas. Como a telenovela já estava no ar na Venezuela, Gustavo teve que ser substituído às pressas por Carlos Mata que havia sido o par romântico de Jeannette em Cristal. Para o mercado internacional, Carlos Mata teve que regravar todos os capítulos já feitos por Gustavo, que foram cerca de dez, enquanto que na Venezuela a telenovela seguia no ar. A pressão para o ator foi tanta que sua saúde foi afetada. O papel que nem Doris Wells, nem Nancy González puderam fazer caiu nas mãos de Dalila Colombo, que apareceu nos primeiros capítulos e logo desapareceu, reaparecendo com a história já avançada. Com a saída temporária da personagem, Gigi Zanchetta, que entrou como figurante assumiu o lugar de protagonista, contracenando com Fernando Carrillo, cuja relação traspassou para a vida real.

Em 1987, Amanda Gutierrez protagoniza com grande destaque a telenovela noturna da Venevision intitulada La luna, junto ao galã porto-riquenho Carlos Cesteros. Desde o princípio, a relação do galã com a Amanda era mais que péssima; conta-se que ele chegou a faltar com respeito a ela e esta pressionou aos executivos pedindo que escolhessem entre ela ou ele. De um capítulo para outro mataram o personagem de Cesteros e Amanda ficou sozinha em seu protagônico, ainda que a subtrama juvenil de Ruddy Rodríguez e Luis José Santander tenha sido reforçada e eles se tornaram o par romântico desta desafortunada telenovela.

Alma mía, telenovela venezuelana da RCTV, realizada em 1988, marcou a carreira de Astrid Carolina Herrera. Sua imagem correu por todo o continente quando se tornou a única protagonista desta história, já que Nohely Arteaga abandonou a produção por motivo de gravidez. Este detalhe fez com que a telenovela conseguisse ainda mais fama porque quando Nohely deixou a produção, vários meios da Venezuela e de países que exibiam a telenovela, disseram que entre as duas atrizes havia certa rivalidade que inclusive havia chegado aos tapas pelos camarins. No entanto, quando Nohely esclareceu os verdadeiros motivos pelos quais decidiu abandonar a telenovela a tensão baixou consideravelmente. Inclusive foi convidada por vários programas junto a Astrid Carolina Herrera. Entre elas nunca houve rivalidade e sempre eram vistas juntas, sobretudo após o nascimento do filho de Nohely.

Mariana Garza
Em Flor y canela, uma produção de Eugenio Cobo, também de 1988, para Televisa, Mariana Garza era a protagonista Marianela. Entretanto, abandona a produção por problemas de saúde e é substituída por Daniela Leites.

Em Rubí rebelde, de 1989, produzida pela RCTV, o papel da vilã principal, interpretado por Yajaira Orta teve que ser substituído de emergência. Yajaira foi diagnosticada com tuberculose e foi substituída por Dalila Colombo, que desde o capítulo 42 até o final interpretou a malvada Lucrecia Miranda. Vale destacar que paralelamente a esta telenovela, Dalila trabalhava na telenovela Abigail, sucesso em vários países - menos no Brasil, onde saiu do ar - protagonizado por Catherine Fullop e Fernando Carrillo, em um papel menor. Durante as gravações de Rubí rebelde uma nova mudança ocorre, Mariela Alcalá, a protagonista, engravida na vida real e sua gravidez é escondida o máximo possível até que sua personagem, Rubí, também ficasse grávida. Entretanto, Mariela é acometida por rubéola e se ausenta uma semana da telenovela com um princípio de aborto. Sua personagem continua nas mãos da atriz María Alejandra Martín, cujas cenas gravadas foram vistas somente na Venezuela, já que para o exterior, a atriz pôde gravar os capítulos feitos por sua substituta.

Também em 1989, durante as gravações de Carrossel, Augusto Benedico, ator espanhol intérprete do personagem Firmino, falece vítima de um infarto. Armando Calvo é escolhido para substitui-lo, a troca foi notória e o personagem original jamais foi esquecido. Outa mudança foi a mãe de Maria Joaquina, vivida por Ludwika Paleta: Clara Villaseñor, originalmente interpretada por Karen Senties, que deixa a telenovela e é substituída por Kenia Gazcón.

Ainda em 1989, quando Lucía Sanoja atuava em Maribel, uma produção da Venevision, protagonizada por Tatiana Capote e José Luis Santander, foi despedida por ordem expressa do já falecido produtor Joaquín Riviera, já que na empresa estavam fartos da irresponsabilidade de Lucía, que se sentia uma diva e chegava tarde às gravações. Sua personagem, Estrella Luna, foi substituída por Imperio Zammataro.
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