domingo, 27 de fevereiro de 2011

Do original ao remake: Doña Bárbara


Na primeira década do século 20, enquanto na Europa imperavam as correntes da literatura de vanguarda, na América Hispânica surgia uma espécie de gênero literário denominado regionalista ou romance da terra, no qual, como indica o nome, sua protagonista era mesmo a terra, suas paisagens, sua flora e sua fauna.

Desde então, cada país hispano-americano viu nascer desde suas raízes uma diversidade de obras marcadas pelo caráter regionalista. Lançado em Barcelona, Espanha, sob o selo da editora Araluce, em 19 de fevereiro de 1929, recebendo quase que imediatamente o prêmio de melhor livro do mês em Madri, surgia do ilustre escritor e político venezuelano Rómulo Gallegos a história de Doña Bárbara, romance que se tornou uma das obras mais significativas do gênero da terra.

O romance foi reelaborado pelo autor em 1930, a partir da segunda edição, a qual teve um acréscimo de mais de 20.000 palavras, capítulos reordenados e aumentados para outros quinze, com diversas expressões. O texto de ambas versões foi todo revisado, até que 25 anos depois, em 1954, Gallego esteve satisfeito com a obra, tal e como é conhecida hoje em dia.

Devido às críticas contra o ditador Juan Vicente Gómez contidas no livro, o autor teve que se exilar em 1931. Após seu regresso, foi nomeado Ministro da Educação, mas seus esforços para seguir com uma profunda reforma escolar fracassaram e foi obrigado a se demitir.

Sua obra esteve constituída por três elementos característicos: ambiente, personagem e realismo, aspectos que deram vida e originalidade à obra. Porém, algo curioso sucedeu com estes três elementos. Na maioria dos romances regionalistas o ambiente tendia a ser mais importante do que os outros elementos, ou seja, a paisagem poderia adquirir dimensões superiores a dos próprios personagens, e, inclusive, poderia ser considerada uma personagem a mais dentro da trama.

Doña Bárbara, sua primeira obra bem-sucedida e considerada, em seu momento, como o melhor romance sul-americano, contava o conflito entre Doña Bárbara, que representava o aspecto selvagem da natureza, e Santos Luzardo, que era a lei, a ordem, o futuro e a modernidade. Rómulo Gallegos, com Doña Bárbara, realizava uma tese educativa, devido ao fato de refletir, por detrás do romance, todos os aspectos da barbárie e da civilização venezuelana, além de sugerir um equilíbrio entre o vitalismo rural e a civilização urbana.

A personagem de Doña Bárbara, tal como planejou Rómulo Gallegos, era a própria representação do barbarismo (falta de civilização) reinante na Venezuela durante aqueles dias, quando o país se encontrava sob a férrea ditadura de Juan Vicente Gómez e com um tremendo nível de atraso. Doña Bárbara, então, veio para representar todas as transgressões da classe dominante contra o camponês comum. Sendo uma combinação de crenças populares na bruxaria e outros rituais mágicos, sua personagem obteve poderes perenes.

Em 26 de março de 1941, a história de Doña Bárbara chegou à rádio cubana graças a Caridad Bravo Adams e ao diretor Luis Manuel Martínez Casado. Protagonizada por María Valero e Ernesto Galindo, esta foi a primeira versão radiofônica apresentada em Cuba pela RHC Cadena Azul, no horário das 20h30, no programa La novela del aire.

Em 1943, a história de Doña Bárbara foi levada às telonas no México. Com a produção de Jesús Grovas, direção de Fernando de Fuentes e roteiro escrito pelo mesmo Gallegos e Fernando de Fuentes, o filme, de 138 minutos, foi protagonizado pela mexicana María Félix, por quem Rómulo Gallegos ficou fascinado desde o primeiro instante, e por Julián Soler, que deu vida a Santos Luzardo. Outros integrantes do elenco foram María Elena Marqués, como Marisela; Andrés Soler, como Lorenzo; Charles Rooner, como Don Guillermo; Agustín Isunza, como Juan Primito; Miguel Inclán, como Melquíades e Eduardo Arozamena, como Melesio Sandoval.

Segundo vários estudiosos de cinema, em sua interpretação, María Félix mostrou todo o estilo extravagante e possessivo que caracterizou a personagem de Gallegos. Para muitos, estes matizes também caracterizaram a pessoa de María Félix na vida real. Prova disso, foi sua atuação super sedutora, que não se distanciou do objetivo e que também a deixou conhecida por seu estilo atrevido e desafiador.

No filme, Doña Bárbara era uma rica dona de terras, desapiedada devido a uma traumática experiência que teve quando adolescente, ao ser violada por um grupo de piratas sanguinários, que também lhe arrebataram o primeiro amor de sua vida. Era uma grande possuidora de terras e rebanhos de gado que usava os homens para seu proveito pessoal, burlava as leis e subornava os funcionários públicos locais.

Um dos poucos fazendeiros restantes na região era Santos Luzardo, que havia voltado do exterior para impor controle no sítio de sua família. Ele suspeitava que o capataz do sítio, Balbino Paiba, havia estado trabalhando de forma dissimulada para Doña Bárbara, a fim de poder roubar seu gado. Os outros peões não acreditavam que Santos fosse aquele que colocaria um freio nas maldades de Doña Bárbara, mas ele demonstrava que o equilíbrio do poder na região estaria a ponto de mudar.

Doña Bárbara tinha uma filha adolescente, Marisela, nascida de seu relacionamento com Lorenzo Barquero, fazendeiro com quem ela esteve envolvida e a quem deixou na ruína e sob o domínio do álcool. A jovem Marisela, diante de um pai alcoólico e de uma mãe que não queria saber dela, foi deixada ao completo abandono, ainda que Juan Primito, um criado de Doña Bárbara, a cuidava secretamente.

Ao conhecer Marisela, Santos Luzardo decidia tomar conta da jovem e de seu pai, e conseguia levá-los ao seu sítio, principalmente com a intenção de proporcionar a Marisela educação e instrução, além de distanciar Lorenzo Barquero do álcool. Enquanto isso, Doña Bárbara sentia-se atraída por Santos, mas quando se dava conta de que sua própria filha era uma rival em seu caminho, buscava arruiná-los por todos os meios possíveis.

Em Cuba, no ano de 1959, após a fuga do ditador Fulgencio Batista, quando o novo governo começava a apresentar um perfil totalitário, tomando o controle absoluto dos meios de comunicação, a atriz Violeta Casal, que era a diretora da Radio Rebelde, chama Manolo Coego para, junto a Raquel Revuelta, levar ao ar Doña Bárbara, a primeira versão televisiva da história de Gallegos, exibida em 1962. Porém, muito rapidamente, o ator Eduardo Egea, simpatizante dos barbudos da Sierra Maestra e primo da primeira atriz espanhola María Valero – que havia interpretado Doña Bárbara na versão radiofônica em 1941 – teve que substituir Manolo Ortega, que foi um dos milhares de detidos pelo governo castrista naqueles inseguros dias, por não sentir simpatia pelos rebeldes da Sierra Maestra e por ser um dos homens mais atraentes e famosos de Cuba.

Obviamente a saída da figura principal masculina foi um golpe tremendo para o êxito da trama. Porém, um de seus êxitos foi justamente a volta de Raquel Revuelta à televisão, depois de muitos anos de ausência, e também devido à pequena abertura na programação televisiva, onde algum tempo antes seria impensável a transmissão de uma telenovela que falasse de bruxaria e dos conjuros de uma mulher para conseguir o amor de um homem. Deve-se levar em conta, também, que além da qualidade do elenco e da direção de Roberto Garriga, esta era a única telenovela que se transmitia por um dos canais que o país contava, ou seja, via-se ela, ou não se via nenhuma, não havia concorrência.

Em 1964, Daniel Camino produziu para o antigo Canal 4, Radio América, a versão peruana de Doña Bárbara, a qual teve como protagonistas os atores Saby Kamalich e Ricardo Blume, desconhecidos internacionalmente até então.

Em 1966, com a assessoria de Rómulo Gallegos, estreia no Teatro Municipal de Caracas, o musical Doña Bárbara, com músicas de Caroline Lloyd e roteiro adaptado de Isaac Chocrón. Inspirada no famoso romance, a peça foi assistida por um numeroso público, composto, também, por distintas personalidades da política e da cultura. Ao final da apresentação, segundo pessoas que se encontravam no teatro, o ilustre escritor chorou emocionado e aplaudiu a versão musical de Doña Bárbara, que teve como protagonistas Morella Muñoz e Ramón Iriarte.

Adaptada por José Ignacio Cabrujas e por Salvador Garmendia, Doña Bárbara teve uma nova versão para televisão em 1975, quando foi transmitida pela Radio Caracas Televisión (RCTV), sendo o primeiro programa gravado a cores na televisão venezuelana e o primeiro a ser exportado para a Europa. Nesta nova adaptação, que inaugurou o gênero da chamada telenovela cultural na Venezuela, atuaram Marina Baura e Elio Rubens, como Doña Bárbara e Santos Luzardo, respectivamente.

Nas planícies venezuelanas, vivia Bárbara, uma mestiça criada por uma tribo de contrabandistas da selva. Bárbara conhecia o amor com Asdrúbal, mas este era assassinado e a mestiça era violada pelos mesmos bandidos. Com sede de vingança contra todos os homens, Bárbara seduzia o fazendeiro Lorenzo Barquero, e, ainda que tivessem uma filha, o empurrava ao alcoolismo e lhe roubava sua fortuna. Lorenzo, transformado em farrapo humano, junto da pequena Marisela, era obrigado a viver em uma cabana miserável.

Quinze anos mais tarde, chegava às planícies, o advogado Santos Luzardo, primo de Lorenzo, que vinha para reclamar as terras de sua família. Santos descobria que toda a região estava dominada por Doña Bárbara que, com feitiços e artes de sedução, havia conseguido impor suas vontades. Ela estava rodeada de delinquentes que cumpriam suas ordens. Santos decidia reabilitar Lorenzo e educar Marisela que era quase uma selvagem. Bárbara se apaixonava por Santos, mas ele só tinha olhos para Marisela.

A obra de Gallegos requeria uma mulher com dureza, bem como talento suficiente na ficção e na realidade, e esse papel se encaixava adequadamente em Marina Baura, cujo olhar profundo e deslumbrante caíam perfeitamente para ser a protagonista principal desta história. Marina contou com Elio Rubens como seu par romântico. O elenco era de primeira dentro da televisão venezuelana: Marisela Berti, como Marisela, a filha selvagem e abandonada de Doña Bárbara; Rafael Briceño, como Lorenzo Barquero, o alcoólico ex-amante de Doña Bárbara; Carlos Márquez, como Balbino Paiba; Tomás Henríquez, como Melquíades; Enrique Benshimol, como Mister Danger; Arturo Calderón, como Juan Primito; Edmundo Valdemar, como Ño Pernalete e o animador Guillermo "Fantástico" González, como Bachiller Mujiquita.

Doña Bárbara foi a primeira obra de Gallegos a ser adaptada para a televisão venezuelana, e se tratou de uma experiência perfeita para que outras, como La trepadora, Pobre negro, Canaima e Sobre la misma tierra, pudessem ser difundidas através do espectro televisivo.

Ainda hoje essa versão de Doña Bárbara, levada à telinha pela RCTV, segue presente na mente dos telespectadores que presenciaram aquele acontecimento televisivo nacional. Ninguém jamais pôde esquecer o momento em que Marina Baura, incrustada no papel, foi embora derrotada, colocando um fim na barbárie e permitindo que a civilização se instalasse nas planícies. Seu rosto se imortalizou desde então.

Três anos após a gravação da versão venezuelana, o clássico de Rómulo Gallegos voltou à Cuba, em 1978, onde se realizou uma segunda versão, novamente com Raquel Revuelta, e dessa vez com Manolo Gómez no papel protagônico. Também dirigida por Roberto Garriga para o canal 6 da Televisión Cubana, quase todos os atores deste remake já haviam participado anteriormente na primeira versão realizada na ilha. Nela atuaram Cristina Obín, como Marisela; José Antonio Rodríguez, como Melquíades; José Antonio Rivero, como Lorenzo Barquero; Alejandro Lugo, como Mister Danger; José Antonio Espinosa, como Balbino Paiba e Daniel García Rangel; como Juan Primito, que ficou com papel, após este haver sido primeiramente oferecido para Erdwin Fernández, que não pôde aceitar  devido a outros compromissos. Nesta ocasião, contou-se com três câmeras e a telenovela foi gravada em vídeo, diferentemente da primeira versão, que foi gravada com auxílio de duas câmeras e  era transmitida ao vivo.

Passaram vários anos, mas em 1998 outro filme baseado na história de Doña Bárbara foi levado às telonas do cinema, e dessa vez na Argentina, onde Esther Goris, também conhecida por interpretar Evita Perón, encarnou a selvagem mestiça vingadora. Sob a direção de Betty Kaplan, atuaram junto de Esther os atores Jorge Perugorría, Ruth Gabriel, Víctor Cárdenas, Eduardo Cutuli, Guillermo Angelelli, Juan Fernández, entre outros.

A ação se ambientava em 1850, momento em que Santos Luzardo retornava a seu povoado natal após ter passado alguns anos estudando Direito na capital. Ali teve que enfrentar disputas por terras e o amor de duas mulheres: a jovem Marisela, e sua mãe, Doña Bárbara, uma ambiciosa e sedutora mulher.

Contando com as atuações protagônicas da mexicana Edith González e do peruano Christian Meier, além da brilhante interpretação de Génesis Rodríguez, a Telemundo produziu sua própria versão de Doña Bárbara para a telinha em 2008. A história cheia de paixões, drama, ação e amor foi apresentada nesta mais recente versão em um ambiente neutro, sem nacionalidades definidas, para atrair o grande mercado de espectadores hispânicos nos Estados Unidos, formado principalmente por mexicanos, e também por imigrantes de pelo menos 15 outras nacionalidades latino-americanas, entre as quais se destaca a venezuelana, que conquistou o sul da Flórida.

Esse remake chegou aos Estados Unidos no dia 04 de agosto de 2008, sendo uma co-produção entre a Telemundo e a Sony Pictures Television Internacional, com a realização da RTI Colômbia. Com um elenco de primeira linha, composto, também, por Roberto Mateos, Paulo Quevedo, Arap Bethke, Luis Fernando Velazco, Andrés Ogilvie, James Bernal, entre outros, além das participações especiais de Maritza Rodríguez e Jencarlos Canela, a produção foi realizada nos estúdios da RTI em Bogotá, Colômbia, e contou com locações externas em Honda, um dos povoados mais antigos do país. Belas paisagens naturais, construções antigas, fazendas de gado e cavalo se tornaram o pano de fundo para a história de Doña Bárbara e Santos Luzardo, dois personagens extremamente opostos, mas magicamente vinculados pelo destino através da pluma de Gallegos.

Nesta ocasião, a versão livre de Doña Bárbara esteve a cargo de Valentina Párraga, com roteiros de Consuelo Garrido e Roberto Stopello, direção de Mauricio Cruz e Agustín Restrepo, e produção executiva de Hugo León Ferrer.

Na pele de Edith González, Doña Bárbara era uma bela mulher que sofreu a terrível experiência de haver sido violada por cinco homens, os quais mataram a sangue frio Asdrúbal, seu noivo. Isto determinou o caráter vingativo e rancoroso da protagonista, que declarou guerra, com ou sem razão, a todo homem que lhe cruzasse o caminho.

Sua sede de vingança era tanta que recorreu aos métodos mais baixos para deixar claro que ela era a única que controlava sua vida e a de quem a rodeava. Para alcançar seu objetivo, despedaçou muitos corações, assim como traiu Lorenzo, o pai de sua filha Marisela, deixando-o no olho da rua e ficando com todo seu dinheiro e sua fazenda. Porém, todo seu plano de vingança se viu em perigo quando Santos Luzardo chegou em sua vida. Este advogado educado, refinado e descendente de uma família das planícies lhe roubou o coração antes que ela pudesse se dar conta.
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